Querido diário: hoje fui na Imigracao
14/05/2009
Introdução: EU SEI QUE FICOU LONGO, mas se eu resumisse este post, ele nao transmitiria a real sensação da experiência. Mas eu dividi em duas partes. Assim os impacientes podem escolher entre ler a parte até o trecho em negrito ou a parte a partir do trecho em negrito.
Ir à Imigracao nao é problema quando se consegue, com cerca de um mês e meio de antecedência, agendar uma entrevista. Você manda um e-mail, eles respondem propondo dia e hora, e dizem os documentos que você precisa levar. Você simplemente vai direto na salinha do funcionário geralmente simpático e bem-humorado que resolve o seu problema, com os documentos pedidos em maos, na data e hora marcados, e sai de lá com seu visto. Simples assim.
O problema é que hoje eu fui sem agendar a tal entrevista, já que anteontem, quando liguei, já era tarde demais e todos os horários estavam tomados. O atendimento “sem agendamento” faz com que seja necessário passar por dois guichês com funcionários-atendentes geralmente mal-humorados que nao resolvem seu problema, 2 senhas, três filas, totalizando cerca de três horas de espera até finalmente chegar ao tal funcionário geralmente simpático e bem-humorado que resolve o seu problema. Aquele mesmo, cuja porta você bate direto quando agenda a tal entrevista.
Você, querido diário, deve estar se perguntando: mocinha, mas por que cargas d’água você só ligou ante-ontem? Eu explico. Mas preciso explicar como funciona a vida de estrangeira que trabalha legalmente por aqui.
Existem vários tipos de visto pelos quais um estrangeiro passa antes de conseguir um permanente. No meu caso, eu já passei pelo de estudante, que tem uma permissão de trabalho restrita a meio expediente, a qual utilizei para estagiar enquanto fazia meu mestrado, e atualmente estou com o “visto restrito”, ou seja, eu só posso trabalhar para o meu atual patrao. Se quiser trocar de emprego, preciso pedir o visto de novo, o que é um processo bastante burocrático, pois a Imigracao nao tem autonomia para liberá-lo. Ela manda o meu pedido e a descricao da minha vaga para a Secretaria de Trabalho, junto com a justificativa por escrito do meu patrao para me contratar, além de outros papéis. A Secretaria de Trabalho verifica se há alguém (europeu, claro) no banco de dados de desempregados que tenha perfil semelhante para a minha vaga e, nao tendo ninguem indicável para ocupar o meu lugar, eles autorizam a liberacao do visto. Já no caso de haver alguém… Bem, vamos poupar bytes: nao houve. Meu chefe justificou minha contratacao depois do estágio muito bem, e meu perfil era “hoch spezialisiert” (altamente especializada). Eu consegui o visto, válido por um ano.
Para renovar este primeiro visto, que venceu hoje, eu teoricamente nao precisaria mais da interferência da Secretaria de Trabalho e receberia um “visto aberto”, ou seja, nao mais restrito ao meu patrao. Eu disse TEORICAMENTE, porque na prática nao foi assim. O “visto aberto” é dado depois de dois anos de trabalho aqui, segundo informacao da advogada que me orientou ano passado. Até aí tudo bem, eu tenho até mais. O que ela nao observou é que o tempo de estágio só conta pela metade. Esta informacao eu só tive quando fui na Imigracao no dia 20 de abril, com entrevista agendada para renovar o visto, crente que sairia de lá com o tal do “visto aberto” e sem a Secretaria de Trabalho me importunar.
Nao saí. A funcionária que, teoricamente, resolveria meu problema, teve que dizer um “sinto muito, mas visto aberto só em setembro” e mandar a papelada pra Secretaria de Trabalho de novo, e eu tive que esperar de novo pela autorizacao deles para continuar a trabalhar e pagar os meus impostos em paz por aqui. Vejam bem: isso foi dia 20 de abril e meu visto venceria no dia 14 de maio, hoje.
Pois na segunda-feira eu ainda nao tinha notícias da Imigracao. Liguei na terca, ante-ontem, pra mocinha e ela disse que eu teria que ir lá para receber um “visto temporário” enquanto a Secretaria de Trabalho nao acordava. Perguntei se dava pra agendar (que inocente, eu…) e ela disse que todos os horários estavam lotados. Teria que ir para o Atendimento sem Agendamento. Nao bastanto isso, ao comunicar ao meu chefe a necessidade de me ausentar por algumas horas do trabalho, ele me diz que a Secretaria de Trabalho pediu “documentos que faltavam” na segunda-feira, três dias antes do vencimento do meu visto.
É, querido diário… A Imigracao até tenta se organizar, mas se a Secretaria do Trabalho nao ajuda, fica difícil. E lá fui eu hoje passar pela fila A, atendente X, senha A, sala de espera B, atendente (mal-humorada) Z, senha B, sala de espera C e, finalmente, a funcionária simpática e bem-humorada que resolveu meu problema: um visto temporário até agosto enquanto a Secretaria de Trabalho nao acorda. Eles até acordaram, mas ainda estao espreguicando e o fax que eles mandaram ONTEM liberando a emissao do visto nao chegou a tempo suficiente para a Imigracao.
Esse foi o relato da minha saga com a Imigracao hoje. Mas se você nao estiver cansado ainda de ler minhas histórias, eu ainda posso dar dicas sobre “o que fazer em uma fila de espera”.
Na fila nao dá pra ler. Entao minha distracao costuma ser imaginar histórias tendo as pessoas da fila como personagens. E a fila da Imigracao tem uma riqueza de personagens incrível! Tem a muculmana com lenco em forma de trancas, o alemao dando mole para a amiga da Indonesia na minha frente, a chinesa com o bebê e a mulher barbada (!!!). Eu fiquei ali a observar estas pessoas e a imaginar histórias para elas. Minha imaginacao foi tao longe, que o tempo pareceu passar mais rápido.
Mas a melhor história foi a do casal atrás de mim. Vou relatar aqui.
Ela é asiática, eu imagino que seja da Tailândia ou do Vietna, e deve ter trinta e poucos. Ele é alemao, tem uns cinquenta e poucos. Ambos muito bem vestidos e elegantes. Constatei que eram casados ao observar mais atentamente que usavam alianca. Mas nao trocavam palavra, e nem se tocavam. Coisa de alemao, nao costumam dar demonstracoes públicas de afeto, principalmente as geracoes, digamos, mais velhas.
Na minha imaginacao, eu os batizei de Kim e Frank. Certa vez, Frank fez uma viagem à Tailândia, em busca de praias paradisíacas para curar a depressao que sentia depois do falecimento de sua esposa. E foi em um quiosque de uma praia paradisíaca que ele conheceu Kim. Ela trabalhava preparando sucos e quitutes para ajudar a mae, já acamada por conta de uma doenca degenerativa. Frank se apaixonou pela moca simples, e passou a visitar o quiosque todos os dias que passou no local, com o objetivo de conhecê-la melhor.
Depois de uma semana já estava apaixonado. Mas tinha que voltar para a Alemanha. E ela nao poderia deixar a mae. Ela se assustou também com ele, pois mal se conheciam. Mesmo assim mantiveram contato depois que ele partiu. Ele escrevia-lhe cartas e telefonava, visto que ela nao tinha internet. Mantiveram assim uma amizade cheia de outras intencoes por meses, sem entretanto perspectiva de concretizar nada, visto que Kim nao podia e nao queria deixar a mae na Tailandia. Frank pensava em formas de deixar a Alemanha, mas a dificuldade de deixar o emprego estável antes de conseguir a aposentadoria.
Um dia Kim deu a temida notícia: sua mae tinha falecido e ela se viu só. Nao queria mais ficar lá. Frank foi entao até ela. Casaram-se e foram para a Alemanha.
A vida de Kim porém nao é fácil. A família de Frank tem dificuldades em aceitá-la, visto que mulheres tailandesas tem fama de dar o Golpe 2 em 1: o golpe do baú e do passaporte. Kim é excecao, mas as estatísticas e os estereótipos nao sao favoráveis. Entretanto, com o tempo, Kim conquista a família aos poucos. Em pouco tempo se envolve com estudos, quer ser advogada. Mas de tempos em tempos precisa ir na Imigracao, pois quem se casa recebe um visto de três anos e precisa renovar por mais dois até completar os cinco anos necessários para se conseguir a permanência. Frank a acompanha sempre. Apesar de dificuldades que enfrentam juntos, se amam intensamente e nao se importam com as convencoes.
Estava eu ali na fila ainda do lado de fora do saguao, quando bateu um vento frio e Frank a abracou carinhosamente. Kim cochichava alguma coisa no seu ouvido e dava-lhe beijinhos. E eu imaginava que minha história imaginária talvez nao estivesse assim tao longe da realidade. Sorri por dentro e depois comecei a imaginar uma história para a mulher barbada.
Rosalina
14/05/2009
Só para fazer um update: minha nova filha se chama Rosalina, por sugestão do meu noivo! Rosalina por sinal está com as flores ainda mais abertas e lindas!
Eu também amei o nome sugerido pela sogrinha: Mag, de magnífica. Mas como a minha bromélia ainda estava sem nome, acho que Mag combina mais com ela. Porque a Mag de fato é magnífica!
E a Gracinha, a orquídea que adotei ano passado, está cheia de botões prontos para abrir a qualquer momento! Outra hora posto fotos dela e da Mag.
Sammia, muito obrigada pela sugestão. Mas Janetinha não… Sorry…